segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A corrupção e o financiamento das campanhas eleitorais

Por Marcelo Manzano.

O caixa dois só existe porque os doadores enxergam nas campanhas eleitorais uma rara oportunidade para usar o dinheiro não declarado, que mantêm guardado debaixo do colchão, na conta de um laranja ou de uma empresa offshore.

Ser contra a corrupção é mais ou menos como ser a favor da vida, como defender os rios e os peixes. Uma unanimidade tão louvável quanto inócua que, se não é burra, frequentemente vem acompanhada de oportuna preguiça mental.

A imagem clássica da corrupção é aquela cena que tantas vezes se assistiu no telejornal da noite: um político ou funcionário público recebendo um pacotaço de cédulas, flagrado sorridente por uma câmera escondida que lhe expõe os caninos.

Mas infelizmente não é bem assim que a coisa funciona, pois, essa talvez seja apenas a face mais tosca das práticas de privatização do Estado que avançam aqui e em todos os rincões do mundo. Além de meios muito mais sutis, a corrupção, antes de qualquer coisa, é uma decorrência lógica e até previsível da crescente substituição de valores (éticos, morais, religiosos ou tradicionais) por preços.

No jargão do economês, dir-se-ia que se trata da precificação das normas sociais ou da redução da sociabilidade a um exercício de comparação entre custos de transação. Se fulano suborna sicrano por $ 100 e sicrano calcula que o risco de ser pego é de $ 80, então, na ausência de outros valores, não há nenhum motivo racional para imaginar que sicrano não se deixará corromper.

Esse é o drama, simples e tremendamente estúpido – como, aliás, é a crença de que a dita racionalidade instrumental é o melhor guia para erigir um mundo.

Entretanto, como nem todos os valores foram ainda substituídos por cifrões, há certamente muito a se fazer, a começar por isolar, tanto quanto for possível, a órbita das instituições políticas da racionalidade dos mercados. É por isso que o financiamento privado das campanhas deve mesmo ser proibido. Mas é importante ter em mente que esse será um passo importante, mas insuficiente. Pior, se ficar apenas nisso, é possível mesmo que se assista a uma agravamento da corrupção.

Deve-se ter claro que o que corrompe o processo eleitoral e acaba comprometendo a gestão pública é, antes de qualquer coisa, a disseminação do chamado “caixa dois”.

O problema é que, ao contrário do que se costuma imaginar, o caixa dois só existe porque os doadores (agentes do setor privado, como empresários, lobistas, representantes de instituições religiosas ou de classe, entre outros) enxergam nas campanhas eleitorais uma rara oportunidade para usar o dinheiro não declarado que mantêm guardado debaixo do colchão, na conta de um laranja ou de uma empresa offshore.

Patrocinar um deputado ou um governante é mais do que uma ótima estratégia de diversificação do portfólio. Aquela grana escusa e mal ajeitada que perambulava escondida dos filhos e dos fiscais encontra nas eleições uma rara possibilidade de abrir frentes de negócios nos anos vindouros. Se tudo funcionar, i.e, pelo menos um dos candidatos apoiados vencer, o capital retornará ampliado.

Por outro lado, para os políticos ou para os partidos não há grandes vantagens em aceitar o “caixa dois”. É obviamente muito mais interessante receber a doação de forma transparente e declará-la sem riscos aos órgãos de fiscalização. Quem exige o ilícito, o malfeito, é na maior parte das vezes o doador.

Ao político cabe escolher entre aceitar e dar um jeito de esconder ou ficar sem a grana e tentar vencer no gogó e no voto de opinião. Qualquer político com um mínimo de discernimento bem sabe o quanto deve ser incômodo carregar o patrocinador escuso ao longo dos anos de seu mandato, tendo que atender pleitos pouco republicanos e negociar com a tigrada a cada passo que queira dar no futuro.

Portanto, é preciso muito cuidado ao tratar do tema do financiamento das campanhas. Primeiro porque não são propriamente as doações legais que selam os pactos fáusticos entre interesses privados e representantes da vontade coletiva. Segundo porque na ausência do financiamento privado e do dinheiro legal – i.e, do caixa um – é plausível imaginar que os cacifes do submundo ganhem ainda maior importância, conferindo mais poderes aos Mefistófeles de plantão que mais do que nunca estarão a recordar dos acordos de outrora.

Assim, se o que se pretende é evitar que os interesses privados continuem desvirtuando os sentidos da boa política, além de acabar com o financiamento privado, é preciso também limitar e controlar com rigidez e parcimônia o volume de gastos das campanhas. Não se deveria aceitar que magos da publicidade vendam seus serviços intangíveis por fábulas de dinheiro, nem que se lance tanta parafernália midiática nas ruas durante as semanas que antecedem as eleições. Do jeito que a coisa vai, com os gastos correndo soltos e o financiamento atrás, até a famigerada Lei Falcão, dos tempos da ditadura, parecerá mais democrática.

Melhor seria saber apenas qual a proposta de cada partido, que realizações dispõem para demonstrar o acerto de seu programa e, quiçá, qual a biografia dos dirigentes que pleiteiam nossos votos. Nada além disso. Talvez todos utilizando a mesma infraestrutura (custeada pela Justiça Eleitoral), gastando o mesmo montante de recursos e, portanto, suportados por cifras equivalentes, sem financiamento privado, nem caixa um, nem dois e, oxalá, sem o espectro do Mefistófeles a nos alienar o destino.

*Marcelo Manzano é economista, Pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho e Professor de Economia da Faculdades de Campinas - Facamp

Fonte: Brasil Debate/ Portal Vermelho

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Manifesto: A educação tem que ser compromisso prioritário

O manifesto “A educação tem que ser compromisso prioritário” – aprovado no último dia 20, em Brasília, pela Plenária Nacional de Educação e subscrito por 16 entidades nacionais comprometidas com a defesa do fortalecimento da educação pública, gratuita, democrática de qualidade e socialmente referenciada – está disponível integralmente em fôlder lançado pelo conjunto das entidades. O objetivo é que, além da entrega do documento com as principais demandas da educação nacional aos presidenciáveis, o fôlder também possa ser utilizado nos estados, junto aos candidatos ao Legislativo e aos governos, para reafirmar o compromisso com a educação.

Fonte: Contee


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Forças de esquerda latino-americanas se reúnem no 20º Foro de SP

A cidade de La Paz, na Bolívia, abriga o 20º Foro de São Paulo (FSP) que começa nesta segunda-feira (25). Partidos e organizações de esquerda se reúnem para “Derrotar a pobreza e a contraofensiva imperialista, conquistar o bem viver, o desenvolvimento e a integração na Nossa América”. O Vermelho embarca com a delegação do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que participará do evento na terra de Evo Morales, Bartolina Sisa e Tupac Katari.

O Foro de São Paulo foi criado em 1990, quando partidos da América Latina e Caribe se reuniram com o objetivo de debater a nova conjuntura internacional pós-queda do Muro de Berlim e as consequências da implantação de políticas neoliberais pela maioria dos governos da região. A proposta principal foi discutir uma alternativa popular e democrática ao neoliberalismo, que estava entrando na fase de ampla implementação mundial.

Vinte e quatro anos depois, diante de uma profunda crise do sistema capitalista, o FSP comemora o êxito da unidade latino-americana e caribenha em um contexto de diversidade. O Documento Base do encontro afirma que “nossa pluralidade é um feito que valorizamos positivamente, mas nossos inimigos são comuns”. Segundo o texto, “o ciclo progressista e de esquerda iniciado em 1998 tem força porque não é único, nem uniforme”.

Está previsto no programa do encontro a realização de um balanço dos governos progressistas, de esquerda e da contraofensiva imperialista. Para tal avaliação, devem ser discutidas as conjunturas internacional (situação econômica e política) e regional (processos de integração, panorama político e eleitoral, lutas sociais e plano de ação). Da mesma forma, é um dever dos partidos reunidos no FSP fazer um balanço das posturas adotadas por seus governos em diversos âmbitos.

“Inimigos comuns”
Há uma grande preocupação dos organizadores do FSP em alertar os países da região a respeito da contraofensiva imperialista. Uma alternativa à invasão militar direta (privilegiada durante o governo de George W. Bush, nos EUA) vem ganhando adeptos entre os opositores de direita na América Latina: o chamado “golpe suave”. Trata-se de uma ampla gama de instrumentos subversivos direcionados aos governos que não respondem aos seus interesses.


Ações desestabilizadoras são fomentadas em busca de “uma mudança no regime”. Frequentemente, resultam em “revoltas populares”, que podem preceder um conflito armado. Esta estratégia ficou evidente na Venezuela, quando a oposição tentou, de diversas formas, criar um descontentamento contra a administração do presidente Nicolás Maduro, no início deste ano.

Em Cuba, a criação da rede social ZunZuneo, financiada pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid, na sigla em inglês), escancarou mais um plano subversivo contra o governo. A denúncia feita pela Associated Press (AP) revelou a tentativa de iniciar uma “guerra não convencional” por meio da utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) no país dirigido por Raúl Castro.

Segundo o conceito, a primeira etapa de qualquer guerra não convencional é unir a população contra o governo vigente e prepará-la para aceitar o apoio dos Estados Unidos.

O progresso e a união dos governos de esquerda na América Latina oferecem uma “ameaça” à hegemonia norte-americana e às corporações do capital financeiro, que sobrevivem das relações de comércio injusto e das matérias-primas dos países da região.

A crise do capitalismo também será debatida no FSP, assim como a estratégia progressista e revolucionária para combater a agressão proveniente desta situação, com a apresentação de um projeto político para as Américas.

Avançar nas mudanças
“É preciso avançar para além das conquistas sociais que foram importantes nos últimos anos”, diz o Documento Base do FSP. Neste sentido, mesas com temáticas como “A juventude em defesa dos processos dos governos progressistas na América Latina” e “As mulheres na integração regional da América Latina e Caribe” fomentarão o debate sobre as mudanças estruturais que os países da região ainda precisam fortalecer.

O Foro de São Paulo acompanha com atenção as questões sociais na América Latina e Caribe. "Unificar critérios, definir uma política e coordenar esforços, em todas as frentes da luta política” são objetivos traçados para esse 20º encontro.

Continente de paz
Em janeiro deste ano, os presidentes e chefes de Estado dos 33 países reunidos na Cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) estabeleceram a América Latina e o Caribe como uma zona de paz.

O documento assinado por eles ressalta o compromisso de respeitar plenamente o direito inalienável de todo estado de eleger seu sistema político, econômico e social ou seus níveis de desenvolvimento.

Dentre as oficinas oferecidas pelo FSP, temáticas como independência, descolonização, soberania e livre determinação promoverão a luta pela paz no continente.

Ainda neste sentido, o fim do conflito armado na Colômbia é um dos assuntos que estarão em pauta em vários debates. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o governo colombiano discutem desde novembro de 2012 uma agenda de seis pontos com o propósito de marcar uma solução política que permita o estabelecimento de uma paz estável e duradoura, após mais de cinco décadas de confronto.

As partes já chegaram a pré-acordos sobre desenvolvimento agrário integral, participação política e solução ao problema das drogas ilícitas. Contudo, a garantia da aplicação destes acordos ao término das negociações segue sendo uma preocupação.

Os delegados do FSP devem manifestar seu apoio a este processo, bem como o incentivo ao início de um processo de paz com o Exército de Libertação Nacional (ELN), que se declarou disposto a isso.

A presidenta do Conselho Mundial da Paz e do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), Socorro Gomes, estará presente no encontro do Foro de São Paulo, onde fará uma conferência sobre a militarização, as guerras imperialistas e a luta pela paz. No momento do seu embarque para La Paz, Socorro declarou ao Vermelho que "é indispensável a união dos partidos políticos progressistas e movimentos sociais para deter a mão agressiva do imperialismo". Segundo ela, na frente da paz e da solidariedade o prioritário neste momento é o apoio ao povo palestino, vítima de massacre genocida por parte do regime sionista, e a contribuição para o êxito dos diálogos de paz na Colômbia.

Por Théa Rodrigues
Fonte: Portal Vermelho

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Ensino superior e a formação do homem culto


Na entrevista da edição nº 17 da Revista e-metropolis, a professora Maria Lígia de Oliveira Barbosa nos fala sobre a relação complexa entre o funcionamento do sistema de ensino superior e os mecanismos de produção e organização das desigualdades nas sociedades modernas. A socióloga analisa a valorização diferenciada dos diversos títulos escolares e sua contribuição para a legitimação das hierarquias entre os grupos sociais. Na sua visão, a passagem pelo sistema universitário, enquanto etapa do processo de construção do homem culto, reafirma os aspectos academicista e patriarcalista da nossa sociedade.


Maria Lígia de Oliveira Barbosa é professora do Programa de Pós-graduação em Antropologia e Sociologia da UFRJ. É coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Ensino Superior e recentemente organizou o livro “Ensino superior: expansão e democratização”, com uma série de trabalhos que ajudam a compreender o quadro atual e os desafios que se abrem para a institucionalização de um ensino superior de qualidade no Brasil. (mligiaifcs@gmail.com)


Revista e-metrópolis: Nas duas últimas décadas, o ensino superior brasileiro viveu uma expansão bastante significativa, acompanhada de um processo de diversificação de sua estrutura. De que modo as ciências sociais podem ajudar na compreensão do funcionamento do sistema de ensino superior e do seu papel na produção e organização das desigualdades nas sociedades modernas?

Como disse antes, o tema do ensino superior é sempre atraente, seja nas conversas informais seja nos colóquios científicos. Nas conversas comuns, o ensino superior aparece como aspiração ‘natural’, como solução para alguns tipos de problemas sociais e econômicos, como espaço da inteligência, competência, seriedade. Em colóquios científicos, talvez por um irresistível pendor psicanalítico de quem apostou todas as suas cartas no mundo acadêmico, há uma busca permanente de explicação dos sentidos e significados do ensino superior em cada sociedade. Mesmo que essas avaliações não tomem a forma direta nem apareçam com esse nome. Na verdade, essas questões permeiam todo o discurso crítico e autocrítico sobre as atividades acadêmicas.

Entretanto, indo um pouco além das conversas entre amigos, são variadas as abordagens das ciências sociais sobre os sistemas de ensino superior. A expansão e diversificação do ensino superior brasileiros nas duas últimas décadas têm gerado importantes discussões sobre o seu significado que se tornou particularmente importante num país com níveis muito baixos de escolarização. Nesse sentido, uma contribuição específica da abordagem sociológica seria o levantamento de hipóteses que oferecessem explicações para algumas das dimensões propriamente sociais desse processo de expansão.

Como bem sabemos, a valorização diferenciada dos diversos diplomas configura um problema de pesquisa sociológica que passa tanto pela discussão dos significados e definições do mérito como fator organizador das hierarquias sociais modernas quanto pela correta compreensão das formas de funcionamento dos sistemas de ensino e da produção das credenciais escolares. Há uma relação complexa entre o funcionamento do sistema de ensino e o mercado de trabalho, e vários estudos indicam que compreender de maneira adequada essa relação é uma chave essencial para explicar não só os diversos mecanismos de hierarquização das competências e qualificações no mercado de trabalho como também para entender como a passagem por instituições do sistema de ensino afeta as chances de vida e de desenvolvimento profissional e pessoal. Enfim, como funcionam alguns dos mecanismos de produção e organização das desigualdades nas sociedades modernas.

Revista e-metrópolis: No livro (Ensino superior: expansão e democratização) você usa dois modelos com perspectivas opostas – o credencialista e o meritocrático – para analisar as percepções sobre os diferentes diplomas do atual ensino superior brasileiro. Como você enxerga o sentido da valorização dos títulos escolares e a sua contribuição para a organização desigual da sociedade?

Os modelos credencialista e meritocrático nos permitem entender melhor essa relação de que falei. São formas diferentes de valorizar e dar sentido ao ensino, à passagem pelo sistema de ensino. Em qualquer um dos níveis. Mas me parece importante destacar essas perspectivas no que diz respeito ao ensino superior, exatamente pelos possíveis avanços na sua democratização no momento em que mais pessoas das classes populares conseguem chegar aqui. A predominância de um modelo ou do outro pode afetar profundamente as chances de aproveitamento com sucesso da formação obtida no ensino superior.

Numa versão mais radical dos sistemas ditos credencialistas, os títulos escolares ou credenciais acadêmicas aparecem como simples marcas sociais, sem qualquer conteúdo relevante. Nesse caso, não haveria uma ligação razoável entre o que a escola ensina e aquilo que se faz no trabalho. Numa sociedade que funcione mais fortemente segundo esse modelo, a instituição escolar apareceria apenas como um mecanismo de legitimação da herança social através da diplomação dos filhos das famílias mais afluentes, sem qualquer papel importante na transmissão de conhecimentos ou na preparação técnica para o trabalho. Nesse sentido, os diplomas superiores teriam um valor meramente posicional. Isso é: um indivíduo portador de um diploma universitário, mesmo que não tenha aprendido nada, que desconheça princípios elementares de qualquer trabalho, seria valorizado porque socialmente ele é visto como superior aos que não tenham esse diploma.

A segunda forma de valorização do sistema de ensino é aquela que podemos chamar meritocrática. Nesse caso, supõe-se uma associação positiva entre o que é ensinado na escola e aquilo que se necessita ou que se utiliza na vida econômica, no mercado de trabalho, nas empresas. Também ganha relevância a discussão sobre o lugar tomado pela ciência nas sociedades modernas: o conhecimento científico adquiriu enorme legitimidade e deslocou os saberes tradicionais (religiosos ou místicos) para se tornar a base principal de legitimação das hierarquias entre diferentes grupos sociais.

É importante notar que não se trata de uma forma de tornar as pessoas iguais. O mérito aparece como uma das características da sociedade moderna como sendo um critério mais legítimo para hierarquizar as pessoas. Em diversas sociedades, considera-se legítimo que quem estudou mais receba salários maiores do que quem estudou menos. A ideia de mérito aparece aqui não como uma utopia igualitária, mas como um critério mais legítimo que a origem familiar para se aceitar sucessos de uns e fracasso de outros. Nesse sentido, a ideia de mérito vem associada no trabalho que fazemos não a uma ideologia meritocrática, mas a um critério mais ou menos efetivamente utilizado para hierarquizar as pessoas.

Por isso é importante diferenciar um sistema de ensino que produza meros marcadores sociais de outro sistema que produza aumento efetivo de conhecimento e realmente capacite seus egressos a disputar postos de trabalho e posições sociais por razões de merecimento. Não por ser, na expressão popular, filhinho de papai rico ou poderoso. Um sistema mais fortemente credencialista apenas permitiria que diferentes pessoas se apresentassem para a disputa social. No caso da sociedade brasileira, ainda muito pouco meritocrática, não é difícil verificar quem seriam os ganhadores e perdedores. Já um sistema com características mais meritocrática habilitaria de forma efetiva os indivíduos que passaram por esse sistema de ensino para disputar as melhores posições sociais. O conhecimento efetivamente detido pelos indivíduos tenderia a fazer mais diferença que a origem social. O que tornaria as hierarquias sociais mais legítimas e até mesmo justas.

Revista e-metrópolis: Em que medida a valorização distinta de títulos escolares indica maior proximidade da sociedade brasileira como um modelo meritocrático ou credencialista?

No caso do Brasil, os dados indicam que temos um sistema fortemente credencialista, que aparece desde a legislação que concede privilégios na prisão a bandidos diplomados até em dimensões mais refinadas do ponto de vista analítico, como é o caso do formato dos cursos, dos conteúdos curriculares em diferentes áreas e, eu diria, até na deficiência de engenheiros, matemáticos e outros profissionais de áreas científicas que demandam uma formação mais pesada. Essa é uma questão em que eu gostaria de investir mais, porque acredito que a melhor compreensão do funcionamento das diferentes áreas de produção de conhecimento, das forças sociais que aí atuam é um campo central para a pesquisa sociológica. No mínimo, para que se pare de afirmar que brasileiro é bom de bola e ruim de matemática. É onde se verifica que não se trata da ordem natural das coisas, como se dizia antigamente. Seja a forma do sistema de ensino, sejam os avanços nos diferentes campos científicos, sejam as formas de ensinar, sejam os modos de produzir ciência, todos sofrem impactos e se redesenham a partir dos modos sociais de lidar com cada um deles.

Revista e-metrópolis: Alguns autores sugerem que o alongamento e a diversificação da escolarização formal são parte das estratégias elitistas de manutenção do poder, numa perspectiva que entende a educação como critério dominante de hierarquização social. Qual o papel da classe média na manutenção das desigualdades escolares e na definição do mérito pela educação?

Eu tenderia a concordar com esses autores. No caso brasileiro, um estudo de Chico Ferreira (que foi da PUC-Rio) mostra que com toda expansão do nosso sistema de ensino e algumas das poucas melhorias nele introduzidas, mesmo assim, a origem social é um fator mais importante para determinar a renda dos indivíduos do que a escolaridade. Uma das hipóteses que o autor levanta é que as classes médias teriam condições muito mais fáceis de acessar e determinar regras para o sistema de ensino. E, sendo assim, teriam condições de também desenvolver estratégias que garantissem que continuariam tendo privilégios no sistema social. Claro que isso demanda mais estudo, mas não é difícil ver os modelos utilizados no processo de expansão do sistema de ensino superior como parte de estratégias desses grupos privilegiados. A elite não entrega o ouro tão facilmente... A exclusividade e o privilégio concedidos ao diploma puramente bacharelesco e acadêmico em detrimento de formações tecnológicas ou das licenciaturas seriam uma evidência nessa direção. Desde que se compreenda que estratégia não é um plano diabólico, combinado nos porões ou nas garagens das elites para não deixar os pobres estudarem. Estratégia é trabalhar para fazer valer um conjunto de regras sociais que reforçam o meu grupo. Cada um faz isso de maneira natural. Sem intenções previamente concertadas. Cabe aos analistas perceber o que significa efetivamente a execução dessas regras, quais são seus resultados práticos. Esses começam a se desenhar em cursos de licenciatura vistos como sendo ‘coisa pra pobre’ ou ‘atividade de segunda linha’ dentro das grandes e prestigiadas universidades do sistema público. Mas também na transformação de cursos técnicos e tecnológicos em arremedos de bacharelados, sem oferecer uma efetiva formação prática e técnica e ministrando disciplinas fracas do ponto de vista teórico ou científico. Nesses cursos, claramente, o sistema tende ao mais absoluto credencialismo...

Revista e-metrópolis: No livro você aponta uma série de ineficiências econômicas e sociais no sistema de ensino superior brasileiro. É possível atribuí-las à força dos títulos acadêmicos, que valoriza os bacharelados em detrimento das licenciaturas e cursos tecnológicos? Em que medida esse academicismo representaria um retrocesso na forma de dominação, reafirmando o bacharelismo/ patrimonialismo contra uma perspectiva mais técnica ou profissional?

Como diria Jack, o estripador, vamos por partes. Acredito que o academicismo seja responsável por ineficiências sociais e econômicas. No primeiro caso, pelo que disse logo acima. Os jovens oriundos das classes populares têm vindo com bastante força para as licenciaturas, deixadas de lado pelos filhos de ‘boas famílias’. E, ao fim do curso, recebem um diploma, legal e teoricamente igual aos colegas que fizeram o bacharelado. Na prática, esses jovens descobrem que esse diploma não é tão igual. O mesmo vale para os jovens que vão para os cursos tecnológicos, de duração semelhante àquela que cursam seus colegas nas engenharias. Então, parece - ainda precisamos tornar isso mais evidente, com fortes pesquisas de acompanhamento de egressos, por exemplo – que os jovens mais pobres que chegaram à universidade não tiveram um sucesso tão grande. Mesmo quando conseguem terminar o curso, o que nem sempre acontece. As promessas de aumento da igualdade de oportunidades não foram cumpridas. Uma incompetência social grave. Também uma grave ineficiência.

As ineficiências econômicas apareceriam nas dificuldades encontradas pelos empresários para recrutar profissionais mais qualificados. Desde um garçom até um engenheiro.

Quanto à associação entre academicismo e patriarcalismo é o próprio Weber que faz uma primeira alusão ao problema. Segundo ele, a pedagogia do cultivo – um dos traços centrais da visão academicista do que deveria ser a universidade – é a forma didática por excelência da dominação patrimonial. Dessa perspectiva, a passagem pelo sistema universitário não significa ter acesso a uma formação científica. Ela é uma etapa do processo – iniciado na família, obviamente de elite – de produção do homem culto. Dessa forma, o academicismo também se liga ao credencialismo: o indivíduo que passa pela universidade não vai aprender alguma coisa para se firmar no mercado de trabalho. Ele vai se preparar para participar de bucólicas conversações nos salões da nobreza tropical, para discutir os rumos do mundo numa boa uisqueria. Ele não é um cientista ou um profissional: ele é um homem culto.


Fonte:
Observatório das Metrópoles / Revista e-metropolis


sábado, 2 de agosto de 2014

Ilustrações mostram como comentários maldosos afetam a vida das pessoas


As ilustrações feitas pela polonesa Katarzyna Babis mostram o quanto as palavras podem carregar um certo peso e que podem refleti notavelmente um certo grau de violência simbólica contra as pessoas. Escutamos essas palavras cotidianamente, mas não refletimos qual o seu significado sociológico e o quanto elas podem representar enquanto danos. 

Ou seja, incorporamos essas expressões em nosso vocabulário, sem o menor esforço reflexivo, reproduzimos - mesmo sem ter a mínima pretensão de agredir alguém - e de uma certa forma contribuímos com uma certa cultura de violência, incompreensão e discriminação.

Observem os desenhos:










































Fonte: Hypeness.
Tradução original: Papo de Homem

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Justiça Reintegra Professora após Demissão e Prática Anti-sindical


No dia 29 de julho, por decisão judicial proferida pelo Tribunal Regional do Trabalho - TRT 6ª Região, a professora Ana Carolina de Albuquerque teve sua reintegração de emprego garantida pela justiça, após ter sido ilegalmente demitida do Colégio Marista São Luiz (UNBEC), localizado no Recife.

A professora Ana Carolina é dirigente da Federação Interestadual dos Trabalhadores em Estabelecimento de Ensino (Fitee), e por cumprir seu mandato sindical, foi perseguida pela instituição que trabalha ao ponto de ser demitida no final de 2013. Conhecida pelos colegas por participar das assembleias e das greves promovidas pelo Sinpro/PE, a professora Carol, como é conhecida, se tornou mais um alvo das perseguições e das práticas anti-sindicais promovidas pelos diretores das escolas privadas no estado.

Mas após ingressar em uma disputa jurídica, o Sinpro-Pernambuco junto à Fitee conseguiram, em virtude de estabilidade sindical, garantir o retorno da professora Carol ao seu posto de trabalho. Ou seja, a justiça foi feita em nome da categoria e também representou um ganho relevante para o sindicalismo classista, principalmente no que diz respeito as suas históricas prerrogativas de mobilizar os trabalhadores para garantir e ampliar os direitos, como também de combater a precarização e a exploração do trabalho. 

Fonte: Sinpro Pernambuco